Resident Evil Requiem – Análise

Admito que antes de escrever, tive a brilhante ideia de começar a análise com um: alguém gostou muito de Alan Wake 2!, isto porque Resident Evil Requiem também nos permite jogar com dois protagonistas, mas rapidamente me apercebi deste erro crasso de falso fã desde o primeiro título. Os Resident Evil sempre vieram aos pares: Rebecca e Billy; Jill e Chris; Claire e Leon, entre outros. Se alguns jogos eram mais solitários, outros vinham aos grupos, como os Outbreak, de onde repescaram a Alyssa Ashcroft para ser a mãe da nossa protagonista. Se esta comparação tola servir para alguma coisa, que seja para vos fazer jogar um dos melhores jogos do género.

Resident Evil já foi muita coisa — com 30 anos em cima, é uma série que se pode dar ao luxo de exageros de identidade. Por isso, não podemos dizer que Resident Evil é aborrecido ou que estagnou, uma vez que tem um pouco de tudo para todos. Se eu cheguei à série pelos zombies, continuo aqui por ser fã do género e pelas tropes que poucos jogos conseguem reproduzir sem soar a homenagens descaradas.
Requiem é a celebração desse aniversário, com tudo de bom e de menos bom a que tem direito. Fica a nota para não esperarem uma história profunda neste jogo, mas também Resident Evil nunca foi forte em contar histórias, valendo-se do carisma do elenco e dos set pieces. Para mim, a mitologia da série já pouco faz sentido com tanta adição, organizações e vírus novos. Resident Evil é-me sinónimo de pura diversão e camp; sequências de autodestruição e vilões excêntricos que se transformam em monstruosidades ineficazes contra a Magnum que poupámos até ao final.

Aqui, é a Requiem. Ah, os zombies!, que nesta sequela estão melhores do que nunca ao reterem fiapos de memórias e de personalidade de quando viviam. O que torna a coisa mais macabra quando os vemos a repetir rotinas, como a cantar ou a apagar as luzes. O jogo apresenta-nos Grace Ashcroft, uma analista do FBI enviada a investigar uma série de homicídios. Durante a abertura e no mesmo local onde viu a mãe morrer às mãos de um assassino encapuçado, Grace é raptada por Victor Gideon que acredita
que esta é especial para aceder ao Project Elpis de Spencer, o fundador da Umbrella. Depois, temos o Leon que se encontra infectado com Raccoon City Syndrome, uma doença que apenas afecta os sobreviventes da epónima cidade. É durante a investigação de mais uma vítima que se cruza com Gideon e, eventualmente, Grace. Aproveito o parágrafo para admitir que fiquei um nada desanimado com a revelação do Leon… Depois de um excelente soft reset com o anónimo Ethan Winters, esperava que a franquia continuasse a apostar nos underdogs, que são melhores veículos de tensão e de vulnerabilidade. Apesar de o Chris ter sido jogável nas secções finais das prequelas, estes momentos de acção genérica acabam por ser mais frouxos em comparação com os segmentos do Ethan.

Estamos todos a jogar Requiem pelo plot, certo? …certo?

No entanto, a Capcom prometeu um equilíbrio entre os dois protagonistas e respectivos momentos de tensão e de acção.
Com a opção de jogarmos na primeira ou na terceira pessoa, os dois protagonistas controlam-se de maneira bem diferente: A Grace tem uma jogabilidade mais lenta e claustrofóbica, os recursos e o inventário são mais limitados e não tem o arcaboiço do veterano. Com ela, resolvemos os puzzles da praxe, recolhemos amostras de sangue para converter em curativos ou munições e recuperamos as lâminas e o esquivar do remake do primeiro Resident Evil. A Grace também tem direito ao seu stalker pessoal em The Girl, que a persegue na escuridão do Rhodes Hill Chronic Care Center. Os momentos que passamos com ela são uma verdadeira carta de amor aos fãs, desde aquele momento em que o zombie revela a cara na câmara no primeiro Resident Evil. Já o Leon troca a faca pelo machado e carrega no pedal da adrenalina e da violência glorificada num RE Engine cada vez mais refinado. Explode cabeças, deflecte motosserras e espeta rotativos. E mesmo com 50 e poucos anos, não deixa as one-liners foleiras! Também regressa o sistema de créditos para comprar e melhorar o equipamento e a viciante gestão do inventário que é um jogo em si.

Agora, conseguiram o tal equilíbrio? Achei que passámos mais tempo com o Leon e que o ritmo sofreu num momento que devia ter sido mais memorável. O que devia ter sido uma secção nostálgica para os fãs, acabou por ser mais insossa com cenários desinspirados, fetch quests e a desviar de morteiros. Preferia ter passado mais tempo com a Grace num jogo de terror que tenta não derrapar para um de acção, mas ser fã de Resident Evil é viver nestes dois espectros — para o bem e para o mal. Se este crescendo é natural, o exagero leva-nos a um Resident Evil 6, que o que teve de positivo foi o regresso às origens com o Resident Evil 7. Gabo o RE Engine desde o sétimo Resident Evil (e Devil May Cry 5), mas não o senti quando joguei Dragon’s Dogma 2 e Monster Hunters Wilds. Para mim, este motor brilha em cenários mais fechados e personalizados, onde exista mais restrição, mas também controlo criativo versus mundos abertos sem personalidade. E nesta sequela, é um salto considerável desde a primeira vez que o vi — as personagens continuam realistas, mas agora com dentes que já não destoam e os fazem parecer bonecos. É tudo tão lindo e decadente, desde os cenários à violência que desferimos.

Grace é a perfeita adição a esta nova iteração de Resident Evil.

Queria dizer o mesmo do lado sonoro, mas o meu apreço fica-se pela prestação dos actores e pela fantástica Angela Sant’Albano que deu vida a Grace com todos os maneirismos e ansiedade de alguém que está a viver aquele terror pela primeira vez. O menos bom que tenho a apontar é para a mistura de som que fazia os diálogos soar mais baixo do que os restantes efeitos sonoros. Um problema que pesquisei e que afecta sistemas de som surround

Não obstante o que escrevi e o proveito que tiramos da conspiração de Requiem, vamos querer voltar pela diversão e pelos desafios. Por ser um jogo curtíssimo, existem boas razões que puxam à repetição e eu só não o recomeço porque quero pegar na série do início. Tenho um problema, mas é um bom problema de se ter.

Opinião Final:

Resident Evil Requiem é uma celebração dos 30 anos da série, recuperando muitos dos elementos que definem a franquia: dois protagonistas, o equilíbrio entre o terror e a acção exagerada, vilões excêntricos e o camp que sempre acompanhou a saga. O salto entre a Grace, num lado mais clássico, tenso e vulnerável do terror, e Leon, com sequências mais explosivas e cinematográficas, serve uma variedade necessária na jogabilidade, embora o jogo pareça favorecer demasiado esta última parte, o que acaba por quebrar um pouco o ritmo e diluir o potencial de terror. Não obstante, é mesmo muito bom!

Do que gostamos:

  • Da Grace, uma excelente nova personagem;
  • Dos novos zombies;
  • Dos visuais;
  • Do fanservice.

Do que não gostamos:

  • Demasiado Leon, se tal existe;
  • Os bosses não são tão memoráveis;
  • Estar sempre a ajustar o som.

Nota: 9/10

Análise efetuada com um código Xbox cedido gentilmente pela distribuidora.