Análise – Super Lucky’s Tale

Desde os inícios da marca Xbox que muito se especulou sobre possíveis mascotes para as consolas desta marca. Visto que Mario estava para a Nintendo e, na altura, Crash Bandicoot para a Playstation – e já agora, Sonic para a SEGA -, sempre houveram (como poderei dizer?) tentativas de arranjar uma para esta divisão da Microsoft. À mente vêm alguns personagens como Blinx e Voodoo Vince, no entanto estes nunca vincaram definitivamente, ficando-se apenas nos confins do tempo, apesar de Voodoo Vince ter tido direito a um remaster recentemente. Provavelmente o jogo mais mediaticamente conhecido por ser da Xbox será Halo, porém o demasiado sério Master Chief não tem, por isso, propriamente estofo para mascote. Eis que surge em 2017 uma raposa chamada Lucky (sortudo) a tentar ganhar este título. Será que o consegue? Ou será que em 2017 o conceito de “mascote” já está ultrapassado?

Super Lucky’s Tale trata-se de uma espécie de sequela, ou nova versão adaptada, do original lançado nos inícios de 2016 para o dispositivo de VR Oculus Rift. O jogo adopta o género de plataformas em 3D clássico no qual movemos o nosso fofo personagem num mundo tridimensional cheio de moedas, colecionáveis e segredos. Se esta descrição não vos traz nada de surpresas é porque, de facto, não existem muitas. O jogo usa e abusa de grande maioria das mecânicas já conhecidas desde os saudosos jogos das consolas 64-bit como Mario 64, Conker, Banjo-Kazooie e afins. Há problemas nisso? Não propriamente, desde que bem empregues e que o jogo tenha alguma “frescura” para se manter a par dos standards de hoje em dia.

Será o primeiro boss?

A estória é algo genérica e eventualmente até se pode perdoar quem, a meio do jogo, já a tenha esquecido. Lucky, uma raposa simpática, vê-se de repente numa aventura em que fica “presa” dentro do Book of Ages encontrado pela sua irmã. O malvado Jinx pretende usar este livro para… fazer maldades? Pois. Certo, tudo o que precisamos de saber é que estamos presos num livro com vários mundos diferentes e temos de usar as várias habilidades de Lucky para sair desta situação. Ah, e derrotar uns mauzões pelo caminho, que, por ventura, baseiam-se por algum motivo, em felinos. Claro que existem outros tipos de inimigos, mas os principais, os capangas e o próprio Jinx, são todos gatos.

Temos então de andar com Lucky por vários mundos algo temáticos, porém com temas algo originais, como o Sky Castle ou a Veggie Village (aldeia dos vegetais). Nestes mundos, como se de um menu em 3D e explorável se tratassem, podemos andar e conhecer algumas das personagens que lá vivem, podendo apanhar moedas espalhadas pelos mesmos, entre outras possibilidades mais ou menos escondidas. Os mundos têm vários níveis pelos quais entramos por portas, portas estas que só se abrem caso já tenhamos em nossa posse um número determinado de trevos de quatro folhas requerido. Temos então de apanhar os tais trevos para, na última porta, defrontar o chefe desse mundo. Em cada nível temos a oportunidade de ganhar até quatro trevos, cada um exigindo certas ações, tais como apanhar 300 moedas nesse nível, ou encontrar todas as letras que perfazem o nome “LUCKY”, entre outras.

Algumas das histórias contadas pelos locais são bem engraçadas

Nota-se que o jogo é especialmente destinado aos mais jovens, dado todo o colorido e ambientação em geral. Apesar de relativamente simples, os visuais apresentam-se bastante agradáveis à vista e de uma suavidade bastante agradável. Todos os personagens têm um aspecto bastante divertido e movem-se com fluidez. É tudo muito bonito, como se tivessem retirado todos estes elementos justamente de um livro de histórias, ou fábulas, neste caso. Todo o estilo artístico é relativamente simples e bonito, fazendo lembrar jogos como Skylanders. A música acompanhar-nos-á constantemente e alguns trechos até “ficam no ouvido”, e acabamos por reparar em nós a murmurar as suas melodias. Conclui-se afinal que uma vez mais o jogo também no que toca a audiovisuais tira muito dos clássicos do género.

Temos aqui, então, as bases que se exige minimamente de um bom jogo de plataformas. Mas então e o resto? Em certa parte, infelizmente confirma-se que até as partes negativas típicas do género se encontram neste jogo. Nomeada e principalmente começando pela câmara. Sendo este um jogo em que navegamos num mundo 3D, não se entende o porquê de não podermos rodar a mesma em completos 360 graus, ou seja, de termos uma perspetiva algo fixa a partir da qual podemos girar apenas cerca de 45 graus à esquerda e à direita, limitando o jogador a jogar apenas em 3 ângulos possíveis. Eventualmente, com algum tempo acabamos por nos habituar, no entanto este sistema não deixa de ser um pouco estranho. Pior ainda, por vezes acaba por causar alguns transtornos e dei por mim a cair várias vezes para o vazio por não ter a melhor visão sobre o posicionamento de Lucky. A sua sombra ajuda, mas não é suficiente.

Alguns níveis exigem que transportemos as cabeças de amiguinhos até ao seu corpo

Outra situação problemática e típica é a considerável facilidade ao longo de todo o jogo. Um dos mais flagrantes exemplos é o facto de o número de trevos necessário para abrir as portas ser bastante baixo. Dos 99 trevos espalhados pelos vários níveis, apenas precisamos de pouco mais de metade. Isto leva a que se elimine quase por completo a necessidade de repetir níveis para tentar encontrar algum que falte. Está certo que eventualmente os níveis mais tarde impõem alguns obstáculos mais complicados, mas nada que seja muito difícil de transpor após algumas tentativas.

Outro elemento incompreensível é a quase completa isenção de necessidade de apanhar moedas. É, talvez, um dos elementos mais presentes por todos os mundos e níveis e, no entanto, quase não servem para nada. Não se compra nada, nem habilidades novas nem sequer roupas ou acessórios para Lucky. As únicas utilidades são de que em alguns níveis  apanhando 300 ganha-se um trevo, e nos mundos onde apanhando certos padrões de moedas certos segredos se revelem, entre os quais, níveis escondidos.

De louvar é o notório cuidado em incluir alguma (boa) variedade nos níveis, tanto os normais como os secretos ou be bónus. Por vezes de repente damos por nós a andar com Lucky numa perspectiva em 2D até bem implementada, o que nos leva a pensar se o jogo não se safaria também se fosse um jogo totalmente em 2D. Outro tipo de mudança na rotina é haver níveis de bónus ou de puzzles que lá vão ajudando a conferir alguma variedade ao jogo. O controlo de Lucky é bastante intuitivo e simples, este corre, salta (com duplo salto já incluido de início) e enterra-se no chão para apanhar moedas ou atingir obstáculos destrutíveis. Era o minimamente exigido tendo em conta as bases de jogos do género.

O mundo de Lucky é bastante convidativo.

É com alguma pena que se constata que apenas podemos jogar Super Lucky’s Tale a solo, não sendo incluída qualquer opção multijogador, mesmo que localmente e apenas para duas pessoas. Esta opção, parece-me, seria perfeitamente aplicável. De resto, e apesar de ser um jogo (como já tinha dito antes) notoriamente concebido para os mais novos, acaba por ser muito divertido e até ter uma dose quanto baste de vício, pela sua natureza simples misturada com os visuais bastante agradáveis, pois faz-nos querer abrir os restantes níveis para ver o que nos proporcionam.

Opinião final:

Super Lucky’s Tale não irá ser daqueles títulos que ficarão para a história, sejamos sinceros. No entanto, não podemos deixar de concordar que este se trata de um jogo que não fica nada mal adicionado a uma biblioteca repleta de jogos de futebol, corridas e de atiradores na primeira pessoa. É um jogo a pensar nos mais jovens, sim, mas que proporciona bom entretenimento também aos jogadores mais experientes, pois exige alguma exploração para encontrar alguns dos segredos mais bem escondidos, além de apelar à nossa nostalgia dos bons velhos tempos de jogos de plataformas em 3D. Não quebrará nenhumas barreiras em termos de originalidade, porém o que faz, faz bem, salvo algumas excepções como a câmara limitada, e a sua dificuldade demasiado baixa. Pelo preço pedido, no meu ver, é uma boa opção como oferta de Natal, ou simplesmente para se ter um bom jogo de plataformas, algo que é um pouco escasso na biblioteca da Xbox.

Do que gostamos:

  • Ambientação e estilo bastante divertido e convidativo;
  • Ideal para os jogadores mais novos;
  • Bastantes segredos e zonas escondidas incentivam a exploração;
  • Preço reduzido bastante justo;
  • Iniciativa Xbox Play Anywhere que permite ter o jogo na consola e no PC.

Do que não gostamos:

  • Pode ser considerado demasiado fácil por muitos;
  • Incompreensível não poder rodar a câmara 360º;
  • Joga demasiado pelo seguro, não inovando muito e mantendo a fórmula clássica;
  • História genérica que não capta muito o interesse.

Nota: 7,5/10


  • Rui Gonçalves

    Boa análise, gostei.
    Parece ser um jogo bem interessante, com a vantagem do playanywhere.