Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake – Análise

Os fãs de Fatal Frame e Silent Hill têm algo em comum — entre abraçarem o lado sobrenatural do terror e terem segundas sequelas aclamadas, também partilham legados que vieram a tropeçar a cada nova geração, ao passo que a chama dos Resident Evil nunca se extinguiu, mesmo com um sexto jogo que arriscou muito e entregou nada. E quando esta última série lançou um remake quase perfeito do Resident Evil 2 (e sequelas), a concorrência não podia continuar muda e calada.

Com o remake do Silent Hill 2, a Bloober fez com que muita boa gente engolisse as suas palavras; eu inclusive. E não sendo fã da sua ludoteca de originais, só consigo esperar sentado pela sua versão do primeiro Silent Hill, com o bandolim que começou tudo. Afinal, eles safam-se melhor quando não têm de pensar numa história, mas isso será outra conversa.

Para variar: tenho a colecção original em backlog, mas estreei-me com o Fatal Frame: Maiden of Black Water, na Nintendo Switch. Há anos, ainda tentei o primeiro, mas rapidamente o meti de lado quando me assustei na abertura. O jogo, e a série, permaneceram-me no imaginário com um feito que poucos se podem gabar — o de me conseguir assustar. É possível que não tenha jogado a trilogia com receio de
destruir a imagem de que Fatal Frame é mesmo uma grande e assustadora série. Ainda mais que Forbidden Siren, convém também a piscar o olho neste texto!

Não há nada como tirar fotos bonitas a fantasmas enquanto tentamos não morrer.

Fatal Frame 2: Crimson Butterfly é considerado o melhor e o pico da série pela sua história, temas abordados e dupla de protagonistas: as irmãs Mayu e Mio. Tanto que já existe uma versão actualizada de 2012, para a Nintendo Wii, que introduz os controlos de movimento para acentuar o terror pela interacção; algo que o Maiden of Black Water repetiu na Wii U. Com o sucesso da Nintendo Switch, e alguns lançamentos acanhados de Maiden of Black Water e Mask of the Lunar Eclipse (quarta sequela, que deixou de ser exclusiva ao Japão), esperávamos que a trilogia ganhasse um novo fôlego. Optarem pelo segundo jogo foi uma decisão estranha, mas que acaba por fazer sentido — pelos motivos já descritos e porque é uma história isolada, ao passo que o primeiro e o terceiro jogos partilham elementos. Bem, o quinto também. Não obstante, a história das gémeas Mayu e Mio está agora acessível a um novo público, mas a que custo…

Crimson Butterfly na PS2 é um jogo de terror à antiga, com visuais sujos e tenebrosos; perspectivas fixas para realçar o terror e controlos tanque — aquela combinação clássica, mas de sucesso que nos fazia jogar de luzes acesas. E com uma dobragem inglesa que não arranhava os ouvidos. Já esta versão é o oposto: é mais limpa e iluminada; lima algumas arestas, mas decide introduzir mais frustrações do que
acessibilidade…

Se não passaram o remake sempre de mãos dadas com a Mayu, que raio andaram a fazer?

Infelizmente, não consegui gostar desta remasterização. Senti-me mais aliviado do que satisfeito quando a acabei e enquanto os créditos deslizavam, discuti com quem terminou o original para tentar perceber se o problema estava nesta versão ou se Fatal Frame 2 afinal não era assim tão bom. Ou se eu é que era o problema! Decidi jogar o original antes de escrever para tirar algumas teimas. E fiquei parvo…
Avante: tão importante quanto as gémeas, é a aldeia de Minakami, onde um ritual falhado de gerações impede que os seus espíritos possam descansar em paz.

Quando se encontram misteriosamente em Minakami, Mayu perde-se ao seguir as epónimas crimson butterlies (borboletas carmesim) nos traumas de Minakami. É uma história de fervura lenta, revelada em migalhas de diários e demais flashbacks, com diversos finais do trágico ao menos infeliz.

Na sombra da exploração está o combate. Não sendo estelar, servia o seu propósito de manter tensão e destacar-se dos contemporâneos do género. Sem armas de fogo ou brancas, seguimos com a Camera Obscura, um artefacto místico que nos permite capturar registos sobrenaturais e fazê-los sumir. Existe zero tensão neste remake, só um arrasto de paciência e frustração.

A aldeia de Minakami está de cara lavada.

Não basta a Mio ser lenta a andar ou a esquivar-se de investidas, como os espectros são ágeis e esponjas de dano; quando não aparecem vários de uma vez. E quando decidem entrar em modo Aggravation, não só recuperam energia como se tornam mais rápidos e mais fortes. Apesar de podermos melhorar as várias lentes e aspectos da câmara, o melhor do combate é quando o podemos evitar e poupar recursos para os bosses.
Num tom mais positivo, o remake inclui novidades interessantes como pequenas caças às bonecas que temos de fotografar aos pares para desbloquear itens na loja. E para incentivar à exploração da aldeia e da sua mitologia, temos algumas missões secundárias. Façam-nas apenas se estiverem investidos no jogo porque a navegação aleada ao passo de caracol da protagonista demove de qualquer espírito explorador.

Admito que fiquei um nada desiludido com a minha antecipação porque achava que ia gostar mais deste jogo e desta versão, mas o grosso da minha experiência deixou-me a coçar a cabeça: para quem é este jogo? Para os fãs do original, que nada lhes tira essa experiência, ou para os novos fãs? Certo que ganham um jogo mais bonito e limpo, com uma dobragem japonesa mais orgânica, mas tirando essa componente mais artística, tudo fica aquém do original. Em suma: é um jogo penoso. Se calhar, essa é a verdadeira maldição de Minakami.

Opinião Final:

No fim de contas, esta nova versão de Fatal Frame 2: Crimson Butterfly acaba por ser um daqueles casos em que a modernização trai a própria essência que pretendia preservar. Ao polir a apresentação e suavizar os elementos mais “ásperos”, perde-se precisamente aquilo que tornava a experiência memorável: a tensão constante, o desconforto e o equilíbrio delicado no qual os clássicos do survival horror eram mestres. O resultado é uma obra que, apesar de visualmente mais apelativa e com algumas ideias interessantes, falha em capturar a alma do original, ficando num limbo estranho. Entre nostalgia e frustração, resta a sensação de que esta visita a Minakami não honra verdadeiramente o legado da série e que, por vezes, há terrores que deviam mesmo ficar intactos no passado.

Do que gostamos:

  • Do mistério de Minakami;
  • Das duas protagonistas.

Do que não gostamos:

  • Dos novos visuais;
  • Da jogabilidade lenta;
  • Do combate trapalhão.

Nota: 6,5/10

Análise efetuada com um código PC cedido gentilmente pela distribuidora.