
A indústria dos videojogos vive de ciclos e de expectativas subvertidas, mas poucos anúncios recentes causaram tanto espanto e curiosidade como a revelação de que o próximo capítulo da saga God of War não seria um colosso tecnológico tridimensional, mas sim uma aventura bidimensional desenhada à mão. A Santa Monica Studio, numa decisão audaciosa de curadoria, entregou as chaves da franquia aos veteranos do estilo retro da Mega Cat Studios para contar uma história que os fãs exigiam há mais de uma década. God of War: Sons of Sparta chega às consolas em fevereiro de 2026 como uma prequela que recua até aos dias de formação militar de Kratos e do seu irmão Deimos, oferecendo uma perspetiva intimista e crua sobre a forja que moldou o Fantasma de Esparta muito antes de este ascender ao Olimpo. Longe da grandiosidade cinematográfica dos planos-sequência contínuos, este título aposta na nostalgia estética e na pureza mecânica dos beat ‘em ups clássicos para explorar o significado de dever e honra num mundo onde a violência é a única linguagem universal.
A direção artística é, sem dúvida, o cartão de visita mais impactante desta obra. A Mega Cat Studios aplicou a sua vasta experiência na manipulação de pixéis para criar uma representação da Grécia Antiga que é simultaneamente vibrante e opressiva. O estilo visual evoca a era dourada das consolas de 16-bits, mas com uma paleta de cores expandida e uma fluidez de animação que seria impossível no hardware dos anos noventa. Cada sprite de personagem é desenhado com um nível de detalhe maníaco, desde as túnicas espartanas desgastadas até às expressões faciais de esforço durante o combate. Os cenários de fundo são ricos em narrativa ambiental, apresentando templos em ruínas, campos de batalha lamacentos e cavernas iluminadas por tochas que projetam sombras dinâmicas em tempo real, criando uma fusão interessante entre a estética retro e as técnicas de iluminação modernas. A violência, uma marca registada da série, é aqui traduzida para uma brutalidade pixelizada que não perde o seu impacto visceral; ver um inimigo mitológico ser desmembrado em pequenos blocos de cor vermelha mantém a satisfação mórbida que os fãs esperam, mas com um filtro artístico que a torna estranhamente bela.

Em termos de jogabilidade, Sons of Sparta afasta-se das Lâminas do Caos e do Machado Leviatã para se focar no armamento tradicional espartano: a lança e o escudo. A mecânica central orbita em torno da cooperação entre Kratos e Deimos. O jogador pode alternar entre os dois irmãos instantaneamente no modo a solo ou partilhar a experiência em modo cooperativo local, uma adição que se sente natural e bem-vinda. Kratos é retratado como a força bruta, com ataques pesados e uma capacidade de absorver dano superior, enquanto Deimos apresenta-se mais ágil e técnico, capaz de executar combos aéreos e desviar-se com maior facilidade. O sistema de combate é enganadoramente simples ao início, mas revela uma profundidade surpreendente à medida que se desbloqueiam novas habilidades de equipa. A coordenação é essencial para superar as hordas de inimigos, exigindo que um irmão levante o escudo para criar uma falange defensiva enquanto o outro ataca com a lança por cima, ou que combinem forças para executar finalizações devastadoras em chefes de nível que ocupam metade do ecrã.
A estrutura dos níveis segue uma linearidade clássica pontuada por secções de exploração e resolução de puzzles ambientais. Estes quebra-cabeças, embora não atinjam a complexidade das masmorras dos jogos 3D, servem como pausas necessárias no ritmo frenético da ação, obrigando os jogadores a utilizar as habilidades específicas de cada irmão para manipular mecanismos, mover blocos ou abrir passagens secretas. A procura pelo cadete desaparecido serve como o fio condutor que leva a dupla através de diversos biomas mitológicos, cada um com o seu próprio conjunto de inimigos e perigos ambientais. A inteligência artificial dos adversários é agressiva e competente, evitando cair no erro comum do género onde os inimigos esperam a sua vez para atacar, o que obriga o jogador a uma gestão de espaço e controlo de multidões constante.

Narrativamente, o jogo carrega um peso emocional significativo para quem conhece o destino trágico de Deimos na lore oficial da saga. A escrita consegue capturar a essência da juventude espartana, focada na disciplina férrea e na lealdade inquebrável, mas deixa transparecer as primeiras fissuras na psique de Kratos. A relação entre os irmãos é o coração da experiência, construída através de diálogos durante a ação e pequenas cutscenes em pixel art que conseguem transmitir emoção genuína apesar das limitações expressivas do meio. Ver a proteção mútua e a camaradagem antes da tragédia que eventualmente os separará adiciona uma camada de melancolia a cada vitória, transformando o que poderia ser apenas um jogo de ação genérico numa peça importante do puzzle biográfico do protagonista.
O desempenho técnico é, como seria de esperar num título desta natureza a correr na PlayStation 5, irrepreensível. O jogo corre a uma resolução 4K nítida com uma taxa de fotogramas inabalável, garantindo que a resposta aos comandos é imediata, algo crucial num jogo que exige reflexos rápidos para aparar golpes e esquivar ataques. A implementação do comando DualSense merece destaque, pois a Mega Cat Studios conseguiu traduzir a textura dos golpes e o impacto dos escudos através do feedback háptico de uma forma que enriquece a imersão tátil. A banda sonora, composta com instrumentos de época e sintetizadores retro, cria uma atmosfera épica que homenageia os temas clássicos da série, mas com uma sonoridade chiptune orquestral que se adequa perfeitamente à estética visual.
No entanto, Sons of Sparta não está isento de críticas. A duração da campanha é relativamente curta, podendo ser completada em cerca de seis a oito horas, o que pode deixar alguns jogadores a desejar mais conteúdo, especialmente considerando o preço de lançamento. Além disso, a variedade de inimigos comuns tende a tornar-se repetitiva no último terço do jogo, com muitas recolorações de modelos anteriores a substituírem novos designs. A curva de dificuldade também apresenta alguns picos abruptos, particularmente nos combates contra os chefes finais, que podem frustrar jogadores menos habituados às exigências de precisão dos jogos de plataformas e ação da velha guarda.
Opinião Final:
God of War: Sons of Sparta é uma pérola retro que expande o universo da série de forma inteligente e emotiva. A Mega Cat Studios entregou um jogo de ação 2D sólido, com um combate cooperativo satisfatório e uma direção de arte em pixel art deslumbrante que justifica plenamente a sua existência fora da linha principal. Embora seja uma aventura curta e por vezes repetitiva, a oportunidade de lutar lado a lado com Deimos e testemunhar a forja do caráter de Kratos torna este título obrigatório para os fãs da saga e para os amantes de beat ‘em ups clássicos.
Do que gostamos:
- A pixel art é vibrante, detalhada e captura perfeitamente a atmosfera mitológica grega;
- A exploração da relação fraterna antes da tragédia enriquece o cânone da série;
- Fluidez absoluta e excelente uso das funcionalidades do DualSense;
- Uma fusão excelente entre a orquestração épica de God of War e o som chiptune.
Do que não gostamos:
- A campanha termina demasiado depressa, deixando a sensação de que havia potencial para mais;
- A variedade de adversários comuns diminui notavelmente nas fases finais;
- Alguns encontros com bosses apresentam um desafio desequilibrado face ao resto do jogo;
- O design de níveis linear oferece poucos incentivos para revisitar áreas anteriores.
Nota: 8/10
Análise efetuada com um código PlayStation 5 cedido gentilmente pela distribuidora.