
Quando anunciado no ano passado para a Nintendo Switch 2, ninguém dava muitos trocos por Pokémon Pokopia. Mais tarde, com sucessivos anúncios, as coisas pareciam estar cada vez menos bem encaminhadas para esta parceria entre a Koei Tecmo (de facto, os criadores de Dragon Quest Builders) e a The Pokémon Company. Por um lado este seria mais um título Switch 2 a custar 70 euros (ou 69.99 se quisermos ter esse preciosismo) e para além disso seria o primeiro jogo publicado pela Nintendo em que o lançamento físico consistia num controverso Game-Key Card — isto é, num cartucho que apenas contém uma licença para fazerem download na eShop, em vez de trazer o conteúdo do jogo já todo no cartucho.
Tudo parecia encaminhado para mais um “boicote” a um jogo Pokémon (uso as aspas pois, apesar das controvérsias, os jogos e spin-offs desta série vendem sempre largos milhões de unidades). No entanto, já perto do seu lançamento em março deste ano, ficámos a par de uma série de primeiras impressões que, com alguma surpresa, pintavam um cenário muito diferente, de um jogo que transbordava de amor e nostalgia, sendo uma das experiências mais acolhedoras neste universo.
Quando, no lançamento, tive oportunidade de me dedicar a Pokémon Pokopia, essa felizmente foi também a minha experiência. Embora o Ditto humanóide com que jogamos me continuasse a perturbar até certo ponto, as interações com Professor Tangrowth e os Pokémon que vão aparecendo nos vários cenários rapidamente me conquistaram.

Sendo este um título produzido em colaboração entre os criadores da série Dragon Quest Builders e a The Pokémon Company (em particular, com alguma supervisão da Game Freak), é especialmente curioso ver a sinergia inesperadamente positiva entre o estilo de jogos da primeira e o universo da segunda. Algo que me agrada particularmente em Dragon Quest Builders é que, ao contrário de outros jogos neste sub-género termos uma campanha robusta, em que nos vão sendo dados vários objetivos para concluir, e portanto alguma direção de como progredir na aventura. Por contraste, nunca consegui realmente ficar investida em Minecraft devido a este ser, por assim dizer, demasiado expansivo naquilo que podemos fazer a qualquer dado momento. Não é que Dragon Quest Builders e Pokémon Pokopia nos obriguem a seguir estritamente estes objetivos, sendo que podemos ter uma liberdade criativa bastante alargada a qualquer dado momento, apenas limitada pelos materiais que já encontrámos, assim como novas receitas que vamos desbloqueando/comprando. Pelo contrário, a experiência é mais de que estamos a ser naturalmente conduzidos para querer cumprir com vários destes objetivos, sentindo ainda assim que somos nós que estamos no controlo de como a nossa experiência com Pokopia vai evoluir. Confesso que sou o tipo de jogadora que prefere focar-se mais na campanha, pelo que não divaguei muito dos objetivos propostos por este jogo. No entanto, caso sejam daqueles jogadores que preferem explorar e construir as próprias coisas sem ligar muito à narrativa, penso que este título igualmente vos irá satisfazer. É um equilíbrio difícil, é certo, mas Pokémon Pokopia conseguiu mantê-lo.
Se tivesse que elencar uma só mecânica de Pokopia que o torne único, diria que é a forma de como Ditto vai ganhando novos poderes ao interagir com Pokémon que vai conhecendo. Para dar apenas alguns exemplos, copiando Scyther, Ditto aprende a cortar pedaços de madeira, com Bulbasaur aprende a crescer plantas, e com Hitmoncham aprende a partir blocos com socos firmes. Várias destas ações são bastante comuns em jogos deste subgénero, no entanto o charme de que estão revestidas em Pokémon Pokopia não tem, na minha opinião, rival até ao momento. Este é um jogo que parece ter sido desenhado especificamente para ser agridoce.
Passo a explicar. Tal como em Dragon Quest Builders, encontramos aqui um mundo em que a sociedade de alguma forma colapsou, deixando para trás casas e Pokémon Centers em ruínas e à espera de uma boa remodelação. Ao longo do jogo, vamo-nos interrogando várias vezes o que poderá ter acontecido a todos os humanos, assim como porque é que os vários Pokémon parecem ter falhas de memória. A grande esperança destes Pokémon é voltarem a estar na companhia dos humanos, e a incerteza de se isso será possível vai-nos dando um aperto no coração. No entanto, as interações e apoio mútuo entre os Pokémon vai-se sobrepondo ao tom mais sombrio de uma sociedade que presumimos pós-apocalíptica em que os humanos já não estão presentes.
No que toca à própria jogabilidade, não me irei alongar muito. Se já têm alguma experiência com este tipo de jogos, seja com Dragon Quest Builders ou mesmo jogos um pouco mais diversos como Animal Crossing, já saberão com o que contar. Ao melhorar o nível de conforto dos restantes Pokémon, mais materiais e receitas vão ficando disponíveis, sendo que podemos inclusivamente restaurar casas completas e Pokémon Centers, os quais por sua vez nos dão mais bónus. Mais tarde na campanha, vamos também conhecendo novas personagens secundárias que vão introduzindo novas mecânicas. Aqui menciono apenas Chef Dente, que nos dá a possibilidade de cozinhar os nossos próprios alimentos. Com tudo isto, Pokémon Pokopia é um jogo em que podem facilmente acabar por dedicar bem mais de 50 horas apenas para concluir a campanha (dependendo, claro está, do vosso ritmo e de quanto exploram). É, assim, um jogo que claramente justifica o seu preço.
Em termos audiovisuais, Pokémon Pokopia também é bastante competente. Fiquei especialmente agradada pelo facto de irmos descobrindo CDs de música que, juntamente com fragmentos de informação deixados para trás, nos vão dando informações sobre o que terá acontecido e em que região estamos. Aqui não vou estragar a surpresa, mas é algo que com certeza irá alegrar os fãs de longa data da série.
A minha experiência com outros jogadores foi limitada, mas tal como em jogos como Animal Crossing, também poderão juntar-se aos vossos amigos e explorar em conjunto.
Se fosse pressionada a encontrar pontos negativos neste jogo, diria que: este é um título que conseguiria ver a correr na Switch, pelo que teria sido bom ver uma versão para a primeira geração de consolas híbridas da Nintendo; e que talvez alguns poderes/transformações tenham pouca oportunidade de se mostrarem úteis face a outras mais essenciais. Qualquer um destes pontos é, na minha opinião, negligenciável. É compreensível que a Nintendo tenha feito alguma pressão para que este jogo fosse lançado apenas para a Switch 2, de forma a impulsionar a venda de hardware. Igualmente, alguma falta de equilíbrio entre os poderes não diminui a experiência em geral. Só não atribuo a nota máxima a este jogo uma vez que, para mim, ficou a faltar aquele je ne sais quoi que torna um jogo num clássico instantâneo, ou num título que jogaria várias vezes ou por muitos anos. Assim, fica o mais perto possível da nota máxima.
Opinião Final:
Pokémon Pokopia é, na minha opinião, o melhor spin-off da série Pokémon até à data. Num mundo instável em que enfrentamos problemas como uma crise de habitação e se adivinham tempos mais apertados ainda economicamente, este é o jogo perfeito para simplesmente nos perdermos durante umas horas no universo de Pokémon, numa experiência que é bastante relaxante e consegue distinguir-se neste que é um género algo saturado.
Do que gostamos:
- Interações entre os Pokémon são adoráveis;
- Há algo de extremamente relaxante em andar num mundo desolado e melhorar a vida de todos à nossa volta;
- Forma de como vamos aprendendo contextualmente o que poderá ter acontecido aos humanos;
- Missões e objetivos ajudam a guiar a experiência para aqueles que gostam de uma experiência mais focada…
- Ao mesmo tempo que tem abertura suficiente para explorarmos e construirmos várias coisas ao nosso gosto.
Do que não gostamos:
- Pensamos que teria sido positivo ver uma versão Switch, mesmo que mais limitada;
- Algumas transformações do nosso Ditto têm usos bastante limitados;
- Pelo preço, gostaríamos de ter visto o jogo completo no cartucho.
Nota: 9,5/10
Análise efetuada com um código Nintendo Switch 2 cedido gentilmente pela distribuidora.