
A franquia Star Fox ocupa um lugar peculiar no catálogo da Nintendo. Embora não tendo a mesma popularidade que outras séries imaginadas pelo lendário Shigeru Miyamoto, como Donkey Kong, The Legend of Zelda ou Super Mario Bros., nem, de longe, o mesmo ritmo de lançamentos, “Star Fox” continua ainda assim a figurar entre os primeiros nomes de que nos lembramos quando pensamos em séries da Nintendo. Neste sentido, ocupa um lugar semelhante à de outras franquias como Metroid e Pikmin. O que torna a situação desta série tão única, no entanto, é que a mesma mais do que qualquer outra franquia da Nintendo tem apresentado uma longa série de falsos (re)começos. Isto é, parece que Star Fox está sempre à beira de realmente alcançar o destaque que merece, mas por uma ou outra razão acaba por não conseguir manter o momento. O lançamento de Star Fox Zero é um exemplo perfeito disso mesmo: lançado em abril de 2016 para a Wii U, a meros 6 meses de sermos presenteados com o trailer de revelação da Nintendo Switch (na altura conhecida entre os fãs e media como “NX”), e com uma jogabilidade que, no mínimo, foi divisiva, Star Fox Zero não teria como ter sido um sucesso.
A consequência mais óbvia desta série de falsas descolagens consiste no modo como a série Star Fox tem ficado limitada a recontar ou reimaginar as Lylat Wars, isto é, o conflito armado entre as forças da Corneria Defense Force e um exilado Dr. Andross, desde o seu lançamento original para a SNES. Mais do que isso, a base para todos os lançamentos desde (mas não incluindo) Star Fox Command tem sido sempre Star Fox 64. Lançado logo no ano de lançamento da Nintendo 64 aqui na Europa e que ele próprio pode ser considerado um reboot do primeiro Star Fox, passaram-se entretanto 30 anos desde o seu lançamento. Existem, no entanto, boas razões para Star Fox 64 ser revisitado de tantas formas diferentes: para além de ser o título mais vendido da série, o mesmo apresentava ainda experiências a solo e multijogadores formidáveis que lhe garantem a melhor receção crítica de um jogo da série até à data.

Dez anos depois do, no nosso entendimento, desastroso lançamento de Star Fox Zero, a série finalmente regressa… em mais uma versão de Star Fox 64 e das Lylat Wars, simplesmente intitulada Star Fox e em exclusivo para a Nintendo Switch 2. Depois da aparição de Fox McCloud em The Super Mario Galaxy Movie, rumores, especulação e expectativas ficaram em alta quanto à possibilidade de um novo jogo Star Fox. Da nossa parte, a expectativa também era grande e a nossa reação original ao anúncio de Star Fox foi, por conseguinte, algo mista. Se por um lado o jogo e as novas cinemáticas pareciam incríveis, o facto deste ser uma recriação de Star Fox 64 limitou um pouco a nossa animação.
Agora que passaram já cerca de 2 meses e finalmente conseguimos pôr as nossas mãos em Star Fox, devemos admitir que este é um dos melhores títulos disponibilizados em para a Nintendo Switch 2 em 2026. Tal como em Star Fox 64, também aqui uma rota demorará não mais do que um par de horas. No entanto, tal como nesses títulos, somos fortemente incentivados a explorar várias rotas e a completar vários desafios. Em Star Fox, tal ganha um destaque especial uma vez que dependendo da rota que seguirmos seremos presenciados com diferentes cinemáticas, que enriquecem o “universo” do sistema Lylat. Talvez o que tornaria mais difícil revisitar as anteriores versões das Lylat Wars seria mesmo a ausência destas cinemáticas, uma vez que embora comunicassem constantemente nas suas Arwings, faltava realmente uma maior dinâmica fora das missões entre os elementos da equipa Star Fox.

Estas cinemáticas permitem também breves momentos de descontração entre missões muitas vezes intensas (especialmente nos modos de dificuldade mais elevados). Star Fox é um jogo em que a ação é bastante intensa e em que, durante as missões, não há praticamente tempo para respirar perante a variedade de obstáculos e alvos a abater. Mantendo o estilo clássico que acabou por definir tantos on-rails-shooters, mas também apresentando secções que permitem uma exploração totalmente livre a três dimensões, o núcleo da experiência Star Fox 64 envelheceu muito bem, mesmo este novo jogo chegando numa altura em que este género tem sido ofuscado por jogos mais abertos.
As cinemáticas são também o ápice da qualidade visual que podemos esperar deste título, que por si só representa talvez o pico da qualidade gráfica que a Nintendo conseguiu extrair da Switch 2 até ao momento. Os vários cenários são ricos em detalhes, com jogos de cor e luz que resplandecem quer em modo portátil, quer em modo TV, do melhor que já vimos na consola. Tendo mencionado a qualidade gráfica, não podemos também deixar de mencionar a excelente trilha sonora e efeitos sonoros e hápticos. Começando pela banda sonora, e como tem sido habitual em jogos mais recentes da Nintendo que fazem referência às suas séries lendárias (pensem em títulos como Mario Kart World, Kirby Air Riders ou Super Smash Bros. Ultimate), também aqui contamos com novos arranjos das várias peças musicais de Star Fox 64, o qual já tinha uma banda sonora soberba. Já no que toca aos efeitos sonoros e hápticos, há que, em primeiro lugar, lembrar que Star Fox 64 foi o primeiro jogo da Nintendo 64 compatível com vibrações proporcionadas pelo Rumble Pack – funcionalidade essa que se tornou rapidamente padrão na indústria. Bastante do feedback relativo a se acertamos na parte correta para causar dano a bosses era, ainda assim, visual. Com Star Fox, tal deixa de ser necessário, uma vez que é possível sentir e ouvir pequenos detalhes e perceber exatamente onde devemos focar os nossos lasers.

Para além da campanha, Star Fox tenta também recriar os elementos multijogadores presentes em Star Fox 64. Seja contra bots, localmente na mesma consola ou através do Game Share, seja online, Star Fox permite-nos jogar um modo competitivo entre duas equipas cada uma com até 4 jogadores. Tal como a campanha, este modo não prima pela quantidade de conteúdo, sendo na verdade bastante limitado. Pelo contrário, o modo multijogadores apresenta uma experiência bastante divertida que nos faz querer jogar “só mais uma partida”. O objetivo é simples: devemos conseguir mais pontos do que a equipa oponente, podendo para isso tentar abater os pilotos da equipa adversária, as suas naves de apoio e capturar certas áreas do mapa. A duração também não é demasiado longa, o que torna a experiência ainda mais apelativa, mas por outro lado também torna mais fácil que nos acabemos por distrair com o tempo.
A forma de como os modos a solo e multijogadores estão estruturados poderá, no entanto, afastar alguns. Se forem aquele tipo de jogador (e não há mal nenhum nisso) que gosta de jogar a campanha uma vez, preocupando-se meramente em chegar aos créditos então Star Fox poderá não justificar, para vós, mesmo o preço mais modesto da versão digital (49.99 euros). Afinal de contas, terão aqui apenas uma campanha que pode ser concluída num par de horas e modos multijogadores com uma quantidade muito limitada de mapas e um só modo de jogo online. Caso, no entanto, e como eu, forem aquele tipo de jogador que gosta de completar os vários objetivos secundários e explorar tudo o que um jogo tem a oferecer, então Star Fox compensará bastante o vosso investimento, quer financeiro, quer em termos de tempo.

Opinião Final:
Star Fox talvez não seja o jogo pelo qual todos esperávamos após ver Fox McCloud no mais recente filme de Super Mario e companhia. No entanto, a sua qualidade é inegável e talvez este seja mesmo o jogo de que precisávamos, trazendo consigo uma necessária injeção de adrenalina, num ano de lançamentos da Nintendo que tem sido bastante focado em jogos mais relaxantes. Pode não ser para todos, especialmente se estiverem à espera de uma narrativa muito elaborada ou uma campanha longa, mas se o jogo “mexer” com vocês, então vai “mexer” de forma intensa e não darão pelas horas a voar enquanto exploram só mais uma rota ou jogam só mais uma partida online. Após uma série de falsas descolagens, acreditamos que é desta que Star Fox vai chegar ao estrelato.
Do que gostamos:
- Cinemáticas enriquecem e recompensam a exploração do sistema Lylat;
- Apresentação audiovisual de entre as melhores que encontramos na Switch 2;
- Jogabilidade clássica e viciante é agora refinada ao máximo;
- Estrutura que nos leva a querer explorar só mais uma rota, ou jogar só mais uma partida online.
Do que não gostamos:
- Gostaríamos de ter visto mais conteúdo original;
- Modos multijogadores limitados;
- Pode oferecer pouco conteúdo àqueles que procuram uma experiência mais linear.
Nota: 8,5/10
Análise efetuada com um código Nintendo Switch 2 cedido gentilmente pela distribuidora.