
A ressurgência do horror analógico e da estética de baixa fidelidade, carinhosamente apelidada de estilo PS1 ou VHS, transformou-se num subgénero robusto dentro da indústria independente de videojogos, capitalizando sobre a nostalgia de uma geração que cresceu a alimentar o medo através de cassetes de vídeo desgastadas e documentários de qualidade duvidosa sobre o paranormal. É neste contexto saturado de estática e polígonos serrilhados que a JanduSoft lança Ufophilia, uma proposta que promete colocar o jogador na pele de um entusiasta de ovnilogia solitário, armado apenas com a sua coragem e um equipamento rudimentar, numa busca desesperada por provas de vida extraterrestre. A premissa é sedutora na sua simplicidade e evoca imediatamente clássicos de culto e o fenómeno cultural do “found footage”, mas a execução técnica revela uma experiência que oscila perigosamente entre a tensão genuína e a frustração mecânica, obrigando a uma análise detalhada sobre se a atmosfera consegue, de facto, superar as limitações inerentes a uma produção de orçamento modesto.
O primeiro impacto visual de Ufophilia é uma declaração de intenções artística que rejeita o fotorrealismo moderno em favor de uma direção de arte suja, escura e intencionalmente confusa. O filtro de vídeo que simula uma gravação antiga não é apenas um adorno cosmético, mas sim uma parte integral da jogabilidade, uma vez que a granulação excessiva e a distorção cromática nas extremidades do ecrã servem para ocultar as imperfeições dos modelos tridimensionais e, mais importante, para criar uma sensação de incerteza constante no jogador. A escuridão é opressiva e quase palpável, transformando a simples navegação pelos cenários, que variam entre florestas densas e complexos industriais abandonados, num exercício de gestão de ansiedade. No entanto, é necessário apontar que esta escolha estética pode tornar-se cansativa para a vista após sessões prolongadas, uma vez que a combinação de aberração cromática com um campo de visão por vezes restritivo pode induzir desconforto físico em jogadores mais sensíveis, algo que as opções de acessibilidade mitigam apenas parcialmente.
A mecânica central de jogo orbita em torno da exploração e da sobrevivência passiva, onde o jogador não dispõe de armamento para combater as ameaças que espreitam na escuridão, dependendo inteiramente da furtividade e da gestão de recursos limitados, designadamente as baterias para a lanterna. A luz é a única aliada num mundo desenhado para ser hostil, mas a sua utilização é uma faca de dois gumes, pois ilumina o caminho ao mesmo tempo que denuncia a posição do protagonista às entidades extraterrestres. Este sistema cria um ciclo de tensão interessante nas primeiras horas de jogo, onde cada sombra projetada por uma árvore ou cada ruído ambiente é interpretado como um perigo iminente. A inteligência artificial dos inimigos, contudo, revela-se inconsistente ao longo da experiência, alternando entre momentos de uma perceção sobrenatural que parece injusta e instantes de uma estupidez artificial que quebra a imersão, onde as criaturas ficam presas na geometria do cenário ou ignoram o jogador a poucos metros de distância, revelando as costuras de um código que necessitava de maior polimento.
O design de som merece um destaque particular nesta análise, pois é o pilar que sustenta grande parte da atmosfera de terror que Ufophilia consegue, por vezes brilhantemente, evocar. A ausência de uma banda sonora melódica tradicional em favor de um design de áudio ambiental minimalista foi uma decisão acertada, permitindo que os efeitos sonoros assumam o protagonismo. O som dos passos na relva seca, o vento a uivar entre estruturas metálicas e, sobretudo, os ruídos guturais e inorgânicos emitidos pelas criaturas criam uma paisagem sonora envolvente que recomenda vivamente a utilização de auscultadores de alta fidelidade para uma experiência completa. A espacialização do áudio funciona como uma ferramenta de jogabilidade vital, permitindo ao jogador triangular a posição das ameaças antes de estabelecer contacto visual, embora por vezes a mistura de som sofra de desequilíbrios, com certos efeitos a soarem desproporcionalmente altos ou sem a devida atenuação pela distância, o que pode causar confusão tática em momentos críticos.

A estrutura dos níveis e o design das missões seguem uma lógica algo repetitiva, que é comum neste género de simuladores de caminhada com elementos de terror. O objetivo resume-se frequentemente a encontrar uma série de objetos ou ativar mecanismos para desbloquear a área seguinte, enquanto se evita o contacto com o inimigo. Se inicialmente esta fórmula funciona devido à novidade do ambiente e ao medo do desconhecido, a repetição das tarefas acaba por diluir o fator medo, transformando o que deveria ser uma caçada aterradora numa lista de tarefas mundanas pontuada por sustos ocasionais. A interação com o mundo é feita através de um sistema de física que por vezes carece de peso e precisão, com objetos que flutuam de forma pouco natural ou portas que oferecem resistência inexistente, detalhes que, embora menores isoladamente, acumulam-se para prejudicar a sensação de presença física num mundo que se pretende imersivo.
Do ponto de vista do desempenho técnico, Ufophilia apresenta-se como um título leve que não exige hardware de topo para correr, mas que sofre de problemas de otimização que parecem derivar mais do motor de jogo do que das exigências gráficas. Em consolas e PCs de gama média, notam-se quedas pontuais na taxa de fotogramas, especialmente quando efeitos de iluminação volumétrica e partículas de nevoeiro se sobrepõem no ecrã. O tempo de carregamento entre áreas é aceitável, mas a transição entre a jogabilidade e os menus por vezes apresenta um ligeiro atraso na resposta, denotando uma falta de otimização na interface de utilizador. A estabilidade geral do jogo é satisfatória, não tendo sido encontrados erros críticos que fechassem a aplicação durante o período de análise, embora os já mencionados problemas de colisão e pathfinding da inteligência artificial sejam ocorrências frequentes que merecem ser corrigidas em futuras atualizações.
A narrativa é entregue de forma fragmentada e ambiental, obrigando o jogador a juntar as peças do puzzle através de notas encontradas e da observação dos cenários. Esta abordagem minimalista enquadra-se bem na temática de conspiração e mistério, permitindo que cada jogador construa a sua própria teoria sobre a natureza dos eventos e a origem das criaturas. No entanto, a falta de uma linha condutora mais forte ou de um desenvolvimento de personagem mais aprofundado faz com que o final do jogo possa parecer abrupto e pouco recompensador para quem esperava uma conclusão narrativa mais tradicional ou explicativa. O jogo aposta tudo na atmosfera e no mistério, sacrificando a clareza em prol da ambiguidade, uma escolha que ressoará de forma diferente dependendo das preferências pessoais de cada utilizador.

O valor de repetição é limitado, uma vez que a linearidade dos objetivos e a natureza scriptada de muitos dos encontros retiram o elemento surpresa numa segunda passagem. Ufophilia é uma experiência desenhada para ser consumida de uma só vez, idealmente numa noite escura, funcionando quase como um filme interativo de baixo orçamento. O preço de lançamento reflete esta realidade, posicionando-se num patamar acessível que convida à experimentação por parte dos fãs do género, mas que pode não justificar o investimento para quem procura uma experiência com maior longevidade ou profundidade mecânica. A proposta de valor reside inteiramente na capacidade do jogo de gerar momentos de tensão genuína e na fidelidade com que recria a estética de terror analógico que tanto fascina a comunidade atualmente.
Opinião Final:
Ufophilia é um produto do seu tempo e do seu nicho, uma obra que demonstra paixão pelo material de origem e uma compreensão clara do que torna o desconhecido assustador, mas que esbarra nas limitações técnicas e orçamentais de uma produção independente de pequena escala. Consegue capturar a essência da paranóia ufológica e transportá-la para um formato interativo, mas falha em polir as arestas mecânicas que transformariam uma boa ideia num grande jogo. É uma viagem curta e intensa ao coração do medo extraterrestre, recomendada para quem consegue perdoar a falta de polimento em troca de alguns sustos genuínos e de uma atmosfera pesada que perdura após desligar o sistema.
Do que gostamos:
- A estética VHS/PS1 e os filtros visuais criam um ambiente de terror analógico muito eficaz;
- Os efeitos sonoros ambientais e os ruídos das criaturas são o ponto alto da imersão;
- O posicionamento no mercado é justo para a duração e o âmbito do projeto.
Do que não gostamos:
- O comportamento dos inimigos oscila entre o injusto e o incompetente, com falhas de pathfinding;
- Os objetivos tornam-se monótonos rapidamente;
- Existem problemas visíveis de colisão e física dos objetos que denotam falta de acabamento;
- A história é demasiado vaga e o final pode ser considerado abrupto e insatisfatório.
Nota: 6,5/10
Análise efetuada com um código PlayStation 5 cedido gentilmente pela distribuidora.