Yoshi and the Mysterious Book – Análise

Confesso que a campanha de marketing da Nintendo não me deixou animada por aí além para jogar Yoshi and the Mysterious Book. O jogo parecia apenas mais um entre outros jogos da Good Feel que se focam tanto em aprimorar a estética que acabam um pouco por esquecer alguns dos pontos mais importantes que tornam um jogo de plataformas tão apetecível. Após aquela que foi para mim uma desilusão com Yoshi’s Crafted World, após o êxito de Yoshi’s Woolly World, foi com bastante ceticismo que esperava a chegada do mais recente título da série Yoshi.

Se em parte o que eu esperava se veio a confirmar — nomeadamente, que este é mais um jogo do Good Feel com um estilo artístico único, do melhor que podemos encontrar na indústria –, a verdade é que Yoshi and the Mysterious Book também se veio a tornar aquela que para mim foi a maior surpresa de 2026 até ao momento. Talvez a crítica mais comum aos jogos do Good Feel seja a de que estes são demasiado acessíveis, algo que também é comummente apontado a jogos Kirby, especialmente Kirby’s Epic Yarn (também produzido por este estúdio), em que não se pode “morrer”. Também em Yoshi and the Mysterious Book não é possível “morrer”. No entanto, ao passo que jogos anteriores do Good Feel apresentavam uma combinação de desafios de jogos de plataformas mais tradicionais e exploração, Yoshi and the Mysterious Book é completamente focado na exploração. Desta forma, o que antes nos dava uma sensação de não haver desafio não é, agora, de todo o foco. Pelo contrário, agora o desafio consiste única e exclusivamente na exploração, e algumas das descobertas de facto puxam pela nossa mente criativa.

Caso tenham jogado outros títulos do Good Feel, poderiam concordar com tudo o que disse anteriormente e pensar que não há aqui realmente uma mudança, uma vez que embora seja bastante fácil completar cada nível dos jogos anteriores, o desafio real consistia em apanhar todas as flores sorridentes ou todos os novelos de lã. Tal seria uma resposta perfeitamente adequada, mas Yoshi and the Mysterious Book apresenta de facto uma mudança de paradigma. Ao passo que em todos os anteriores títulos estavamos no contexto de jogos sidescroller  tradicional, em que devíamos ir de ponto A (tipicamente à esquerda) e acabar no ponto B (tipicamente à direita), em Yoshi and the Mysterious Book a progressão é completamente não linear (embora os níveis continuem a ser 2.5D). O nosso objetivo não é chegar à meta, descobrindo o maior número de flores e mantendo o maior número de corações possíveis, como em Crafted World. Pelo contrário, o nosso foco é dedicado única e exclusivamente a investigar criaturas diferentes que vão aparecendo nas páginas deste livro misterioso. Ao fazê-lo, vamos preenchendo o livro com informações (logs) sobre os hábitos destas várias criaturas, como se fossemos um(a) biólogo/a a investigar o mundo de Yoshi.

Este novo foco é, na minha opinião, o que torna este título tão distinto e tão bom, para mim claramente o melhor título do Good Feel até à data. Descobrir o que torna cada criatura que o Mysterious Book contém única despertou em mim um sentimento de curiosidade que me fez lembrar de quando era criança e ficava fascinada com documentários sobre o mundo natural, ou quando fiquei agarrada aos jogos Pokémon de 3ª e 4ª geração. Tal não é de surpreender, uma vez que Yoshi and the Mysterious Book é também, talvez mais do que qualquer outro até agora na Switch 2, o jogo mais bem-adequado para as crianças mais jovens.

Tal como nos jogos Pokémon, também aqui podemos ser nós a dar o nome que quisermos às espécies que vamos descobrindo. Para cada uma, é-nos dada uma sugestão de como as nomear, sempre com base nos seus comportamentos ou características, mas pessoalmente tirei mais proveito da experiência ao escolher eu própria um nome para cada uma delas. Infelizmente, os nomes que escolhermos têm de cumprir um dado limite de caracteres, pelo que nem sempre foi possível dar o nome que pretendia, por um ou dois caracteres. Curiosamente, os nomes que nos são sugeridos não parecem cumprir o mesmo limite.

Apesar deste pequeno percalço, é difícil de exagerar a quantidade de vezes que este jogo me deixou realmente de bom-humor e despertou genuína surpresa e felicidade. Seguindo a onda de outros títulos publicados pela Nintendo na primeira metade deste ano, encontramos aqui mais uma experiência que procura deixar-nos relaxados, ao mesmo tempo que escapamos para outros mundos, mundos em que não há guerras nem custos de componentes a subir exorbitantemente devido à IA. Caso circunstâncias geopolíticas atuais vos preocupem, tal como a mim, este é um bom título para descomprimir e relaxar. A título pessoal, Yoshi and the Mysterious Book tem sido um título ideal para acabar o dia antes de ir dormir. É daqueles jogos que nos podem deixar mais descansados e com sono, mas por um bom motivo, não por serem entediantes.

Já aludi brevemente a este ponto em cima: Yoshi and the Mysterious Book está, a nível de direção artística, entre o melhor que podemos encontrar no catálogo de jogos da Nintendo Switch 2 até à data. Fazendo uso da versão mais recente do Unreal Engine da Epic Games, Yoshi and the Mysterious Book é sem dúvida um dos títulos que melhor faz uso deste motor de jogo na nova consola híbrida da Nintendo, sendo também um dos títulos com uma apresentação visual mais própria a fazer uso deste motor. Os jogos que usam o Unreal Engine 5 têm-se tornado conhecidos por más razões, apresentando um estilo que os torna relativamente parecidos uns com os outros e não sendo sempre muito bem otimizados. Tal é algo comum, e podemos ver isto desde que o motor se tornou tão popular na sua terceira versão. Assim, é realmente de grande mérito que o Good Feel tenha conseguido modificar o motor de jogo e criar assets que realmente tornem Yoshi and the Mysterious Book num jogo tão diferente do habitual no Unreal Engine 5 e ao mesmo tempo talvez o jogo com o melhor estilo de arte não-realista na Switch 2. Devemos notar, no entanto que a resolução interna deste título é baixa. Apesar de não ter notado artefactos no uso de upscalers, devo ainda assim deixar a nota, caso sejam especialmente sensíveis a este factor.

Opinião Final:

De resto, não há muito mais a dizer sobre Yoshi and the Mysterious Book. Apresentado de forma digital a um preço reduzido de 59.99 euros, este é também o primeiro título naquele que parece ser um esforço da Nintendo por realmente fazer uso do prometido “preço variável”. É um jogo que me trouxe vários momentos de pura alegria e surpresa e que recomendo vivamente. Nem todas as criaturas conseguem realmente fazer-nos sentir desta forma, mas este título consegue alcançar vezes suficientes o que pretende, para merecer uma nota elevada. Caso o vosso objetivo seja simplesmente chegar ao fim de cada nível e partir para um próximo título, julgo que não tirarão grande partido desta nova aventura de Yoshi. No entanto, caso lhe dediquem verdadeiramente atenção, mesmo que em sessões de jogo mais curtas, Yoshi and the Mysterious Book recompensar-vos-á com alguns dos momentos mais mágicos que a Nintendo tem para oferecer na sua nova consola.

Do que gostamos:

  • Foco completo na exploração elimina tensões existentes nos mais recentes títulos do Good Feel;
  • Sentimentos de curiosidade e alegria puros na investigação de cada espécie;
  • Direção de arte fantástica;
  • O melhor uso do Unreal Engine 5 na Switch 2 até à data.

Do que não gostamos:

  • Limite de caracteres na nomeação de criaturas;
  • Nem todas as espécies que devemos investigar despertam os já referidos sentimentos de curiosidade e alegria;
  • Baixa resolução interna, provavelmente devida ao uso do Unreal Engine 5.

Nota: 9/10

Análise efetuada com um código Nintendo Switch 2 cedido gentilmente pela distribuidora.