
O Samsung Galaxy Watch Ultra2 é daqueles produtos que impressionam antes de ser preciso tocar-lhes. A caixa robusta, o ecrã luminoso e a promessa de acompanhar corridas em trilho, passeios de bicicleta e até mergulhos deixam claro que a Samsung não quis fazer apenas mais um relógio inteligente. A questão é perceber quantas dessas capacidades continuarão a importar depois de passar o entusiasmo da compra. Por 699,90 euros em Portugal, mostrar notificações, contar passos e registar o sono não chega. O Ultra2 tem de oferecer vantagens reais tanto nos dias de aventura como na rotina entre trabalho, treino e descanso. E oferece-as, sobretudo através da bateria maior e de ferramentas desportivas mais específicas. Mas também é um relógio cujo preço só faz sentido para quem sabe, desde o início, que vai usar regularmente mais do que uma pequena parte do que ele consegue fazer.
Em Portugal, existe uma versão de 47 mm com LTE, disponível em cinzento e prateado. Não há um modelo mais pequeno para quem tem um pulso estreito, nem uma opção apenas Bluetooth que permita entrar nesta gama por menos dinheiro. A caixa mede 47,4 por 47,1 mm, tem 10,7 mm de espessura e pesa 61,5 gramas sem bracelete. A Samsung reduziu a espessura face ao Ultra anterior, mas não fez desaparecer a presença do relógio: sente-se no pulso, pode incomodar sob uma manga justa e exige alguma adaptação a quem pretende usá-lo durante o sono. Em troca, oferece uma construção preparada para utilização exigente e três botões físicos, incluindo um botão rápido laranja. Quando se está a correr, com as mãos frias ou com o ecrã molhado, estes comandos são mais do que um pormenor estético. A bracelete incluída favorece a ventilação e a drenagem de água; quem preferir outras opções, como as de tecido ou híbridas, terá de considerar esse custo adicional.
O ecrã Super AMOLED de 1,52 polegadas tem resolução de 498 por 498 píxeis, proteção em cristal de safira e um brilho máximo anunciado de 5000 nits. Importa não interpretar esse último valor como luminosidade constante de todo o painel: trata-se de um pico atingido em condições específicas. Ainda assim, a intenção é acertada. Num relógio pensado para mostrar ritmo, direção, frequência cardíaca ou profundidade enquanto se está em movimento, a facilidade de leitura vale mais do que uma animação vistosa. O modo de ecrã sempre ligado torna a consulta mais imediata, embora consuma bateria. A forma também continua a marcar a identidade do Ultra: um mostrador circular dentro de uma caixa de contorno mais quadrado. Não é discreto nem tenta parecer um relógio clássico. Para alguns será exatamente esse o apelo; para outros, uma razão para procurar algo menos chamativo.
A plataforma Snapdragon Wear Elite, com um processador de cinco núcleos fabricado em 3 nm, trabalha com 2 GB de memória e 64 GB de armazenamento. O sistema é Wear OS 7 com One UI 9 Watch, o que permite instalar aplicações da Google Play, consultar notificações, fazer pagamentos por NFC e utilizar os serviços da Samsung. A versão LTE pode também receber chamadas sem depender da proximidade imediata do telemóvel, desde que exista um eSIM ativo. Esse último ponto merece atenção antes da compra: ter LTE no relógio não significa que o serviço da operadora esteja incluído no preço. A ativação depende de compatibilidade e das condições comerciais do operador. Também é necessário um smartphone com Android 13 ou superior, mais de 1,5 GB de memória e serviços móveis Google para configurar o dispositivo. Não funciona com iPhone, e algumas das funções de saúde exigem especificamente um telemóvel Samsung Galaxy.
É fora de casa que o nome Ultra começa a justificar-se. O GPS de dupla frequência L1 e L5, o suporte para percursos GPX e a opção de regressar pelo caminho percorrido dão ao relógio uma função mais séria do que simplesmente desenhar uma linha num mapa depois do exercício. Na corrida em trilho, a informação de elevação e das subidas que se aproximam pode ajudar a gerir o esforço. Os alertas de hidratação usam uma estimativa da perda de suor para sugerir quando beber água, embora não devam ser confundidos com uma medição exata das necessidades de cada pessoa. No ciclismo, existe ligação a sensores externos compatíveis para acompanhar cadência, potência e velocidade. Em conjunto, estas ferramentas fazem sentido para quem prepara percursos e acompanha a sua evolução. Para quem corre sempre o mesmo trajeto curto ou só quer saber quantos quilómetros fez, grande parte deste potencial ficará por explorar.
O mergulho é a novidade que mais distingue o Ultra2 de um Galaxy Watch convencional, mas também a que exige mais cuidado nas expectativas. O relógio apresenta classificações IP69K e 10 ATM, certificação MIL-STD-810H e conformidade com a norma EN13319, aplicada a instrumentos de medição de profundidade e tempo de mergulho. A aplicação Depth já permite consultar profundidade, temperatura da água e tempo decorrido, com utilização anunciada até 40 metros nas condições indicadas pela Samsung. Outra coisa é a aplicação mais avançada desenvolvida em colaboração com a Mares, destinada a acrescentar dados como velocidades de subida e descida e limites de segurança: essa funcionalidade foi anunciada para mais tarde em 2026 e não deve contar como algo já disponível. Nem a resistência à água nem a presença de um sensor de profundidade dispensam equipamento adequado, planeamento ou procedimentos de segurança. Depois de contacto com água do mar, a Samsung recomenda ainda enxaguar o relógio com água doce.

Mesmo que nunca entre no mar, o Ultra2 continuará a recolher dados durante grande parte do dia. O sensor BioActive acompanha a frequência cardíaca e outros indicadores, enquanto a Samsung Health organiza sono, atividade e tendências. A Pontuação de Energia tenta relacionar descanso e esforço recente; a Carga Cardiovascular Diária e o Índice de Condição Física procuram dar contexto à evolução do treino. São ferramentas mais interessantes quando existe um histórico de várias semanas do que quando se olha para um número isolado numa manhã. O relógio oferece também ECG, medição de pressão arterial e deteção de sinais de apneia do sono, sujeitos a requisitos próprios. Em Portugal, ECG e pressão arterial dependem da aplicação Samsung Health Monitor e de um telemóvel Galaxy compatível. Para medir a pressão arterial é preciso calibrar o relógio com um medidor de braçadeira e repetir periodicamente essa calibração. Estes resultados podem ajudar a prestar atenção à saúde, mas não são diagnósticos nem substituem acompanhamento médico.
A melhoria mais fácil de apreciar numa semana comum poderá ser a bateria. Os 800 mAh representam, segundo a Samsung, um aumento de 35% na capacidade face ao Ultra anterior. A marca anuncia até 60 horas com o ecrã sempre ligado e até 80 horas com essa opção desligada. São valores obtidos em condições de teste próprias, não uma garantia para quem mantém LTE ativo, treina longamente com GPS e recebe notificações ao longo de todo o dia. Ainda assim, uma margem maior significa menos preocupação com o carregador e mais oportunidades para usar o relógio durante a noite. Essa continuidade importa: se o objetivo é perceber padrões de sono, descanso e recuperação, tirar o dispositivo do pulso todas as noites reduz precisamente a informação que torna essas métricas úteis. A autonomia deixa, assim, de ser apenas uma comodidade e passa a fazer parte da proposta de saúde do produto.
O carregamento, em contrapartida, merece uma leitura cuidadosa. A Samsung anuncia cerca de 40% em 30 minutos, mas esse resultado pressupõe a utilização da base sem fios dedicada EP-OL715, incluída na caixa, e de uma fonte de alimentação adequada. O adaptador de tomada não vem incluído. Quem já tem um Galaxy Watch também não deve partir do princípio de que poderá reutilizar qualquer base anterior, um carregador Qi genérico ou o carregamento inverso do telemóvel. A própria Samsung identifica incompatibilidades com determinados acessórios e avisa que uma alimentação inadequada pode limitar a velocidade ou impedir o carregamento. Existem relatos de utilizadores sobre tempos superiores aos anunciados, mas casos individuais não chegam para concluir que todas as unidades têm o mesmo problema. Chegam, isso sim, para tornar sensato confirmar os acessórios usados antes de contar com o carregamento rápido numa viagem ou numa pausa curta entre treinos.
O preço, aliás, é o filtro decisivo desta análise. A loja oficial apresenta o Ultra2 por 699,90 euros, com possíveis reduções sujeitas a condições, incluindo desconto associado a determinados meios de pagamento e retoma de um equipamento elegível. O Samsung Care+ é opcional: a proteção contra danos começa em 5,99 euros por mês ou 99 euros por dois anos, enquanto a modalidade que inclui roubo e perda custa mais e está sujeita às condições e franquias do serviço. Há ainda períodos experimentais anunciados para Strava e iFIT, sem que essas subscrições sejam necessárias para utilizar as funções essenciais do relógio. Quem conta usar regularmente GPS, rotas, LTE e recursos para atividades exteriores encontrará aqui uma proposta coerente. Quem quer sobretudo notificações, monitorização do sono e registo de exercício deverá olhar com atenção para os Galaxy Watch menos caros da própria Samsung. O Ultra2 é melhor equipado, mas equipamento que fica por usar não se transforma em valor só por estar no pulso.
Opinião Final:
O Samsung Galaxy Watch Ultra2 é um relógio Android ambicioso e mais equilibrado do que o antecessor. O ecrã, a bateria reforçada e as ferramentas para percursos exteriores tornam-no particularmente apelativo para quem treina com frequência e passa tempo fora de casa. As métricas de mergulho já disponíveis acrescentam interesse, embora a aplicação mais avançada anunciada com a Mares ainda esteja por chegar. O tamanho único, algumas restrições de compatibilidade e o carregamento dependente de acessórios adequados impedem uma recomendação sem reservas. Vale a pena comprar agora para quem vai aproveitar regularmente as funções Ultra e encontra uma boa campanha; para uma utilização sobretudo quotidiana, é preferível aguardar uma promoção expressiva ou escolher um Galaxy Watch mais acessível.
Do que gostamos:
- Ecrã AMOLED nítido e com brilho máximo anunciado adequado a utilização ao ar livre;
- Bateria de 800 mAh e autonomia anunciada superior à da geração anterior;
- GPS de dupla frequência, rotas GPX e informação útil para corrida em trilho;
- Medição de profundidade, temperatura da água e tempo de mergulho já disponível;
- Wear OS 7, LTE e 64 GB de armazenamento oferecem versatilidade além do desporto;
- Botões físicos práticos e carregador sem fios dedicado incluído.
Do que não gostamos:
- Preço difícil de justificar para quem não aproveita regularmente as funções Ultra;
- Tamanho único de 47 mm, demasiado grande para alguns pulsos;
- Carregamento dependente de acessórios compatíveis e sem adaptador de tomada incluído;
- Aplicação avançada de mergulho anunciada com a Mares ainda não disponível;
- ECG e pressão arterial exigem um smartphone Samsung Galaxy compatível.
Nota: 8,5/10
Análise efetuada com Samsung Galaxy Watch Ultra 2 gentilmente cedida pela Samsung para teste.