Xiaomi 15T Pro – Análise

A linhagem da série T da Xiaomi sempre ocupou um espaço muito específico e por vezes conturbado no calendário tecnológico anual. Surgindo habitualmente no último trimestre do ano, estes dispositivos têm a difícil missão de oferecer uma alternativa de alto desempenho a um preço significativamente mais convidativo do que os topos de gama tradicionais lançados no início do ano. O lançamento do Xiaomi 15T Pro chega agora ao mercado nacional num contexto de feroz competitividade e com um posicionamento de preço agressivo que procura responder à eterna crítica de que estes modelos sacrificavam demasiado a competência fotográfica e a qualidade de construção em prol da velocidade de processamento pura. A grande novidade desta geração reside na inclusão de uma teleobjetiva periscópica de 5x, o que constitui uma estreia absoluta nesta família de dispositivos e promete elevar a fasquia da fotografia de longa distância, mantendo a já icónica e frutífera parceria com a Leica. A utilização diária e exaustiva deste equipamento revela uma máquina que amadureceu significativamente e que tenta equilibrar a potência bruta com uma versatilidade fotográfica renovada, embora continue a carregar algumas decisões de design e software questionáveis que impedem uma ascensão à perfeição absoluta num segmento onde a margem para erro é cada vez menor.

O contacto inicial com o dispositivo deixa claro que a marca abandonou definitivamente as linhas curvas e a ergonomia mais suave das gerações anteriores em favor de uma estética mais industrial, plana e utilitária que segue as tendências dominantes do mercado em 2026. O design é dominado por um ecrã totalmente plano de 6,83 polegadas e uma moldura em liga de alumínio aeroespacial que confere uma rigidez estrutural superior e uma sensação de densidade assinalável na mão. Com um peso que ultrapassa ligeiramente as duzentas gramas, este não é um aparelho leve ou discreto, mas sim um bloco de tecnologia que transmite robustez. O acabamento traseiro em vidro fosco, denominado pela marca como Xiaomi Shield Glass, revela-se surpreendentemente eficaz a repelir marcas de uso e impressões digitais, mantendo um aspeto limpo e sofisticado ao longo do dia mesmo sem a utilização de capa. No entanto, o módulo de câmaras traseiro assume um protagonismo visual inegável e divisivo, apresentando-se como uma ilha quadrada de dimensões consideráveis que se projeta vários milímetros para fora do corpo, impedindo o telemóvel de repousar de forma estável numa superfície plana e criando um desequilíbrio notório quando utilizado sobre uma mesa para escrever mensagens ou consultar notificações.

O painel frontal continua a ser um dos argumentos mais fortes desta proposta e um dos melhores exemplos da tecnologia atual de visualização, tratando-se de um ecrã AMOLED CrystalRes de nova geração capaz de atingir uma taxa de atualização variável de até 144Hz. A fluidez da navegação, das animações do sistema e da resposta ao toque é irrepreensível, proporcionando uma sensação de velocidade imediata que é difícil de igualar. O destaque técnico vai contudo para o brilho máximo que atinge agora picos de 3200 nits em conteúdos HDR, garantindo uma legibilidade perfeita mesmo sob a luz solar direta e intensa do verão português, superando muitos concorrentes diretos que ainda lutam para manter a visibilidade em exteriores. A calibração de cor de fábrica tende ligeiramente para os tons frios e saturados para impressionar no primeiro olhar, mas as definições avançadas do sistema permitem um ajuste granular que satisfará quem procura a precisão do espaço de cor DCI-P3 para edição de fotografia ou consumo de conteúdo multimédia de alta fidelidade com suporte para Dolby Vision e HDR10+. Adicionalmente, a tecnologia de escurecimento PWM de alta frequência foi melhorada para reduzir a fadiga ocular em ambientes de baixa luminosidade, um detalhe técnico muitas vezes ignorado mas vital para a saúde visual a longo prazo.

No coração do sistema opera o processador MediaTek Dimensity 9400+, um componente de silício que desfaz qualquer preconceito que ainda pudesse existir em relação ao fabricante de chips taiwanês no segmento premium. A arquitetura deste processador, fabricada num processo de litografia de ponta, demonstra uma capacidade de resposta imediata em qualquer tarefa, superando em vários testes sintéticos e cenários de utilização real os concorrentes diretos equipados com as alternativas mais recentes da Qualcomm. A combinação deste processador com a memória RAM LPDDR5X e o armazenamento UFS 4.0 resulta numa velocidade de abertura de aplicações e transferência de ficheiros quase instantânea. A gestão térmica, assegurada pelo novo sistema de refrigeração IceLoop de câmara de vapor expandida, mantém o desempenho estável mesmo durante sessões prolongadas de jogos graficamente exigentes como Genshin Impact ou títulos com ray tracing ativo, dissipando o calor de forma uniforme pela estrutura de alumínio sem criar pontos de aquecimento excessivo localizados que prejudiquem a experiência ou causem desconforto nas mãos do utilizador.

A vertente fotográfica sofreu a maior e mais importante evolução desta geração, com o conjunto de sensores a receber uma atenção especial para combater o estigma de que a série T é apenas focada em desempenho. O sensor principal Light Fusion 900 de 50 MP entrega imagens com o característico contraste dramático e cores ricas da Leica, oferecendo uma gama dinâmica excelente que preserva detalhes tanto nas sombras profundas como nas altas luzes. A verdadeira estrela e elemento diferenciador é a nova teleobjetiva periscópica de 50 MP com zoom ótico de 5x e estabilização ótica de imagem, que transforma radicalmente a versatilidade do aparelho ao permitir capturar detalhes arquitetónicos, cenas de desporto e retratos à distância com uma nitidez e separação de planos que o modelo anterior não conseguia alcançar nem com recurso a cortes digitais agressivos. O processamento de imagem evita o aspeto artificial e excessivamente aguçado, preferindo uma renderização mais orgânica que respeita a textura da pele e dos materiais. A nota dissonante neste conjunto de excelência é a lente ultra-grande angular de 12 MP, que apresenta uma qualidade manifestamente inferior aos restantes sensores, notando-se uma perda de detalhe nas extremidades da imagem e a introdução de ruído digital visível assim que as condições de luz deixam de ser ideais, revelando onde foram feitos os cortes de custos para atingir este preço.

A autonomia beneficia do aumento da capacidade da célula de bateria para os 5500 mAh, permitindo ultrapassar um dia completo de utilização intensa com uma margem de segurança confortável, mesmo com o ecrã configurado na resolução e taxa de atualização máximas. Uma decisão curiosa e que poderá gerar alguma discussão foi a redução da velocidade de carregamento com fios para os 90W, um valor inferior aos 120W da geração passada que carregavam o telemóvel em menos de vinte minutos. Embora na prática a diferença no tempo total de carga seja de apenas alguns minutos, situando-se agora perto da meia hora para uma carga completa, não deixa de ser um recuo nas especificações técnicas. Em contrapartida, a manutenção do carregamento sem fios de 50W é um ponto positivo fundamental que acrescenta conveniência e versatilidade ao pacote, permitindo carregar o dispositivo rapidamente em bases compatíveis sem a necessidade de ligar cabos, algo muitas vezes ausente nesta faixa de preço intermédia.

O software HyperOS 2.0, baseado na versão mais recente do Android 15, apresenta-se mais maduro, fluido e com animações refinadas que elevam a sensação de qualidade de utilização, aproximando a experiência da fluidez tipicamente associada ao iOS. A interconectividade com o ecossistema da marca foi reforçada, permitindo uma transferência de ficheiros e espelhamento de ecrã quase perfeitos com tablets e portáteis da Xiaomi. Contudo, a experiência inicial continua a ser severamente prejudicada pela presença excessiva e intrusiva de aplicações pré-instaladas e jogos de qualidade duvidosa, o chamado bloatware, que obriga o utilizador a perder tempo precioso numa limpeza inicial do sistema e na desativação de notificações publicitárias da própria loja de temas e aplicações da marca. Esta prática comercial, embora compreensível para subsidiar o preço do hardware, continua a ser uma mancha significativa na reputação de um dispositivo que, em todos os outros aspetos de hardware, compete diretamente e sem receios com os melhores e mais caros telemóveis do mercado global.

O sistema de som estéreo, composto por dois altifalantes dedicados, oferece uma separação de canais competente e um volume máximo elevado sem distorção notável, embora falte alguma profundidade nos graves quando comparado com os líderes de mercado neste segmento. O motor de vibração háptico no eixo X merece um destaque positivo pela sua precisão e firmeza, proporcionando um feedback tátil seco e satisfatório ao digitar ou em interações do sistema, contribuindo para a perceção geral de qualidade premium do equipamento.

Opinião Final:

O Xiaomi 15T Pro afirma-se inequivocamente como a escolha racional e pragmática para o utilizador que valoriza o desempenho bruto e a longevidade técnica acima do estatuto de marca. Ao abdicar de um design mais ergonómico e da melhor câmara ultra-grande angular do mercado, a Xiaomi entrega em troca um processador de topo capaz de durar anos, um ecrã brilhante de referência e, finalmente, uma teleobjetiva periscópica que justifica plenamente o apelido Pro na vertente fotográfica. É uma ferramenta de produtividade e entretenimento robusta que, apesar de manter algumas arestas por limar no software e na política de aplicações pré-instaladas, oferece uma das melhores e mais equilibradas relações entre preço e potência disponíveis no panorama tecnológico atual.

Do que gostamos:

  • A inclusão do sistema de zoom periscópico de 50MP eleva drasticamente a utilidade fotográfica e a versatilidade criativa do telemóvel;
  • O MediaTek Dimensity 9400+ oferece uma velocidade de processamento e estabilidade térmica de topo, ideal para gaming e multitarefa pesada;
  • O painel CrystalRes com brilho de 3200 nits e 144Hz garante uma experiência visual de excelência e legibilidade total em exteriores;
  • A bateria de 5500 mAh proporciona uma duração superior à média do segmento, aguentando dias intensos sem ansiedade;
  • O processamento de cor e contraste continua a dar uma identidade única e cinematográfica às fotografias, fugindo ao aspeto digital excessivo.

Do que não gostamos:

  • A qualidade do sensor de 12 MP destoa negativamente do restante conjunto, com ruído visível e menor detalhe em situações de pouca luz;
  • A quantidade de aplicações lixo e publicidade pré-instalada desvaloriza a experiência premium e exige configuração extra;
  • O tamanho e espessura exagerados do módulo de câmaras fazem o telemóvel balançar de forma irritante em superfícies planas;
  • A descida para 90W, embora pouco impactante na prática diária, representa um recuo técnico na folha de especificações face ao modelo anterior.

Nota: 8/10

Análise efetuada com um Xiaomi 15T Pro cedido gentilmente pela Xiaomi para teste.